25 de dez de 2008

AS83 - Brownie

Quando eu comecei a estudar violão, há uns 4 anos (quase 5), meu foco era somente música clássica. Na verdade o que me dava a motivação pra pegar o instrumento e estudar era o som da Granada de Isaac Albeniz, a primeiríssima música que eu ouvi e aprendi no violão (só um pedacinho), quando meu pai redescobriu seu velho instrumento. Aquele som era tudo pra mim, superou até minha admiração pelos Bachs que estava pegando no piano na época, e me levou a estudar seriamente. Só havia um problema, fora o violão, já estava levando 3 instrumentos: piano, flauta e violoncello. É muito para um pirralho de 11 anos. No decorrer de um semestre voraz e sem descanso, decidi parar com as aulas de violoncello e outras desventuras me levaram a deixar a flauta também. Os dois que me restaram são até hoje os instrumentos que pretendo tocar pelo resto da minha vida. Pelo menos o piano é, mas com o violão erudito a coisa mudou bastante...

Depois de mais um ano, quase nas férias de julho, ao mexer em alguns CDs daqui de casa, descobri a gravação mais importante e influente no meu aprendizado até hoje: Unplugged do Eric Clapton. Confesso que toda a minha vida até então tinha sido de negação para música popular, mas quando ouvi o blues saindo daquelas cordas, não havia o que me segurasse mais. Já estava mais ou menos desanimado com o violão clássico, então todos os fatores contribuíram e no último dia de aula, disse pro meu professor que queria parar com o clássico e me dedicar inteiramente ao blues. Ele já havia me avisado que se em algum momento do curso eu pretendesse mudar, não haveria problemas, mas também me ajudou a refletir se era realmente o que eu queria. Seis meses depois, TODAS as músicas daquele álbum já estavam de cor e fluentes. Eu realmente havia me encontrado, e todo meu preconceito (tá, eu ainda me recuso a ouvir e aceitar disco music, mas isso tem motivo!) foi desmantelado. Porém depois de realmente estar certo do que queria tocar, me encontrava em outro dilema. Precisava de um instrumento novo pra continuar, e as opções eram violão folk (cordas de aço e elétrico) ou uma guitarra.

Meu pai já tinha a Stratocaster dele, mas eu nunca curti muito o som das guitarras sólidas, preferia aquele som encorpado a la B.B. King e outros blueseiros que comecei a ouvir e tirar. Então, pelo bem da versatilidade, decidi por uma semi-acústica, um modelo com captação de humbuckers que funcionam tanto na ponte quanto no braço e se assemelhavam ao timbre sólido e acústico, além de um terceiro híbrido. No natal daquele ano, saí a procura de uma guitarra ideal pra mim, e achava ter encontrado uma perfeita em uma loja no centro, grafitada de preto e com um bom som até. Tava em conta também. Mas quando voltei no dia seguinte, talvez por uma questão de minutos, a guitarra tinha sido vendida. Não fiquei tão chateado assim, nem me lembrava direito da aparência da guitarra mesmo, muito menos do som. Foi então que decidimos, eu meu pai e meu professor, irmos juntos em outra loja e experimentar umas guitarras parecidas.

Haviam duas guitarras que me chamaram a atenção lá, uma com escudo e pintura clara e outra sem escudo e tigrada em marrom escuro, muito bem acabadas por sinal, e que tinham um som estratosfericamente melhor que da grafitada. Já começava a agradecer o cara que 'tirou' a outra guitarra de mim. Meu professor experimentou a clara, que era a escolha mais provável, e descobriu que um traste dela estava ruim, ou seja, a tigrada foi a escolhida. Levamos ela pra casa mas tive que esperar até 24/12 pra abrir o bag e tirar o que viria ser meu maior xodó...

Ibanez Artcore Series AS83 era o nome dela, e mesmo não estando lá tão animado no momento da compra, naquela semana, percebi o tesouro que tinha nas mãos. Naquela época ainda não usava palheta, e de tanto tocar (eram horas e horas ininterruptas), me cortei com as cordas enferrujadas ainda da loja e tive que tomar uma antitetânica no dia seguinte. Mas eu nem liguei, pra mim aquilo era o nirvana, já sabia tocar algumas músicas propriamente feitas pra guitarra, como Sunshine of Your Love e Cocaine, mas o tornado ainda estava por passar. Foi quando sai atrás de outros guitarristas, refinar o estilo. A escolha mais óbvia pra mim era um nome que mal conhecia mas que já estava cansado de ouvir falar, um tal de Jimi Hendrix. Esse músico simplesmente me destroçou, era impossível não ficar em transe com toda a psychedelia canalizada no blues mais... soulful que já tinha ouvido. Foi com Foxy Lady e Manic Depression que aprendi a usar meu amplificador, principalmente a distorção, e a primeira vez que solei com a pentatônica na minha vida foi ao som de Voodoo Chile (A Slight Return). Ainda me sinto minúsculo e incapaz comparado ao som gigantesco que aquele semi-deus exorcisava de seu instrumento. Eu nunca mais seria o mesmo.

Uma das minhas memórias mais longínquas é de encontrar meu pai ouvindo Led Zeppelin III no nosso toca-discos, quando ele me viu passando, me chamou e colocou Since I've Been Loving You no último. Aquilo me fascinou de um jeito estranho, uma sensação inexplicável que só teria novamente quase 10 anos depois, quando peguei o mesmo disco pra tentar tirar umas músicas, inconsciente que era o mesmo. Quando passei por esse solo furiosamente apaixonado em dó menor, me convenci que precisava de uma palheta. E embora isso não pareça uma diferença tão grande, a palhetada se tornou a viga central do meu estilo desde então (se bem que hoje eu sou chegado em uns tappings de vez em quando, mas quem não é?). E já fazia um ano que estava com a guitarra, meu ouvido já estava bom suficiente pra tirar quase todas as músicas que ouvia e a palhetada me dava condições técnicas completas pra toda a música anglo-americana (ou seja, tudo que havia de bom para mim), como se o mundo fosse um livro e o cadeado tivesse se quebrado. Me sinto assim até hoje, pra falar a verdade. Eric Clapton, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, The Who, Beatles, Rolling Stones, Doors, Van Halen, Jeff Beck... cada um me mostrou um jeito novo de tocar e ainda incluo pelo menos um lick de cada um em meus solos, quando me lembro.

Uma semana fatal no fim de 2007 me levou a pensar que minha guitarra havia morrido, literalmente. Primeiro, ela caiu no chão com o braço pra baixo e a peça abriu no meio. Agora, ela não afinava mais nem a pau. Depois, ela caiu com tudo e rachou o tampo. Agora o som não era tão perfeito. É difícil tentar explicar pra que não tem um instrumento e realmente se conecta com a música que toca nele, mas por não conseguir mais tirar meu som, eu fiquei extremamente deprimido, como se um pedaço gigantesco da minha alma tivesse evaporado, e por um ano tive que agüentar isso. Finalmente, em outubro, consegui economizar o bastante - 500R$ - pra levá-la num luthier de confiança e dois meses depois, ela estava de volta: inteira e perfeita. Isso foi na semana passada. Agora eu continuo minha jornada pela história musical acompanhado dessa maravilhosa guitarra, perfeita mais uma vez, me arriscando nos jazz e vanguardas da vida, pela primeira vez consciente da bênção caótica que é tentar descobrir o MEU som. Só tenho certeza de duas coisas: eu estou muito perto dele e ele tem tudo a ver com a Brownie.





Mas por que eu decidi nomeá-la Brownie?
Essa é uma pergunta que eu já respondi pelo menos umas oito vezes. Quem sabe um dia eu coloque uma explicação aqui também, mas realmente prefiro deixar assim mesmo por enquanto. E NÃO, ela NÃO se chama assim porque eu gosto de muffins...

Se você quiser, também pode chamá-la de 'aquela sua ibanez do caralho, véio?!' e 'o que um dia foi a poupança pra a faculdade'.

Hendrix vos abençoe.

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