8 de dez de 2008

Astrumpolvere

'Whenever life gets you down, mrs Brown
And things seem harsh or tough
And people are stupid, obnoxious or daft
And you feel that you had quite eno-o-o-o-ough...!
(...)
So remember when you're feeling rather small or insecure
How amazingly unlikely is your birth!
And pray that there's intelligent life somewhere up in space
Cause it's bugger-all down here on Earth'

Não há forma melhor de começar esse post que com a introdução e fim da Galaxy Song, do filme O Sentido da Vida do Monty Python.
Olhe ao seu redor. Certamente você percebe mais que essa camada de ar insípida, inodora (dependendo do seu ambiente e estado fisiológico, claro) e incolor sem a qual este texto não estaria sendo escrito. Tudo de palpável em torno de você, inclusive seu corpo inteiro, não foi magicamente formado em 10 mil anos, alguns séculos ou 9 meses a partir do nada. Tudo isso veio das estrelas, das mais distantes imagináveis, por mais incrível que pareça. E não, não estou articulando nenhuma teoria pseudo-científica que envolva astrologia (grr...) ou hermetismo (esse até vai, mas só de domingo a tarde e ás vezes quinta logo depois do almoço com uma boa calda de chocolate por cima). Falo da teoria da nucleossíntese dos elementos, que diz que todos os elementos químicos mais pesados que o hidrogênio (isto é, com mais de 1 próton) foram fundidos no núcleo de estrelas com temperaturas altíssimas, ou seja, uma fusão nuclear semelhante ao que move nosso Sol, porém em uma escala que não valeria a pena exemplificar aqui (vamos só dizer 'ridiculamente exponecialmente grande'). Aos mais bravos, um parágrafo sobre a nucleossíntese em sí (aos menos bravos, o post continua no terceiro parágrafo):

Originalmente, acreditava-se na idéia de que todos os elementos químicos foram criados ao mesmo tempo nos primórdios do universo, mas não havia bases teóricas para isso. Arthur Stanley Eddington apresentou em 1920 uma teoria sugerindo que as estrelas obtêm sua energia através de fusão nuclear de 2 átomos de hidrogênio (1 próton) em 1 de hélio (2 prótons), mas a falta de mecanismos nucleares impediu sua disseminação eficaz. Pouco antes da segunda guerra mundial, Hans Bethe apresentou os mecanismos nucleares necessários para a teoria de Eddington, porém ainda não havia justificativa para elementos mais pesados que o hélio. Já logo depois da segunda guerra, Fred Hoyle mostrou que a síntese dos outros elementos aconteceria em seus núcleos em formação, onde haveria pressão e temperatura suficientes para as fusões ocorrerem. Desde então, muito foi adicionado à teoria, e os processos astrofísicos foram indentificados, que basicamente se referem à fusão de hidrogênios na corrente próton-próton, combustão de hélio, carbono, neon, oxigênio e silício. Estes seriam responsáveis por todos os elementos até ferro e níquel, e elementos mais pesados são fundidos dentro das estrelas por uma captura de nêutron conhecida como processo-s, ou em supernovas. Algumas das mais importantes incluem o processo-r, -rp, e -p (também conhecido como -Gamma), que envolve fotodesintegração do núcleo (fonte - wikipédia).

"How amazingly unlikely is your birth!" de fato. Não só temos que conviver com a idéia que somos seres quasi-abstratos conscientes de sua consciência e mortalidade num planeta de periferia galática (relativamente) longe de qualquer outra coisa pensante ("And pray that there's intelligent life somewhere up in space...) que em 10 mil anos de existência conseguiu exterminar boa parte de seus iguais por mesquinhices e por deixar-se levar pelo contexto histórico/cultural (...cause it's bugger-all down here on Earth"), como também que o que nos forma agora foi um mero twist of fate e que poderia ter deixado de acontecer por diferença de alguns segundos, milímetros ou kelvins. É demais para um símio, por mais desenvolvido que ele seja. Então criamos nossos deuses a nossa imagem e semelhança para nos confortar e tornar essa jornada biológica mais fácil e sutil, afinal, como Nietzsche disse, "Deus (nesse caso, o deus que serviria para explicar os fenômenos naturais) está morto". Porém o deus do anseio humano, dos sentimentos, do afterburst hormonal e protéico, esse ainda vai perdurar muito tempo. Para bem ou para mal.

Mas ainda vale o conselho da música. Lembre-se disso quando você estiver se sentido minúsculo ou inseguro. Pode salvar sua vida, seja ela biológica, metabólica, sentimental, racional, espiritual, filosófica, ou vegetativa (como eu, que por estar de férias sem ter programado nada fico matando o tempo criticando metade da humanidade e deixando a outra metade me olhando com cara feia, mas ainda me aceitando no meio).

Músicas para/do post:
http://www.youtube.com/watch?v=OcTHBOjnUss - Galaxy Song
http://www.youtube.com/watch?v=Rj-4t9drUlM - Across The Universe

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