21 de dez de 2008

Allumerium

Nós estamos num período mais que privilegiado da história da humanidade. Já vimos tantas metas impossíveis serem atingidas, limites intransponíveis serem ultrapassados, dogmas onipotentes sendo destruídos e a conquista de mundos que nossos sentidos não podem distinguir sozinhos, desde o microcosmo atômico até a imensidão do universo. Qualquer alma viva que se dedique ao estudo da história de seus antepassados (descrente também da diferença entre nacionalidade, credo, raça e laços sangüíneos reconhecíveis) vai encontrar uma gama de exemplos de como a combinação de homem/tempo/espaço pode fazer a diferença e se tornar muito mais poderosa que qualquer uma dessas condições sozinhas, pois daí nasce o legado da revolução ou consolidação de uma idéia que inevitavelmente afeta todos esses parâmetros profundamente, mesmo que gradualmente. Àqueles que ainda duvidam da capacidade desses primatas abstratos, uma lembrança do que foi a Grande Biblioteca de Alexandria e o Programa Apolo deveria bastar para ao menos sinalizar que esse pessimismo pode vir de uma experiência pessoal, e não de um fato conclusivo.

Especialmente no fim de ano, me assusta a quantidade de rituais e pseudotécnicas espalhados por aí para que 2009 seja melhor para as coisas óbvias da vida: dinheiro, felicidade, família, etc... E também a complexidade desses rituais: prepare um chá de sândalo colhido com uma luva verde, deixe fora da casa quando a constelação de ursa maior estiver apontado para norte-noroeste, dê cinco pulinhos prendendo a respiração e depois grite três vezes "gabbagabbaheiheishururelbleargh" e isso lhe trará prosperidade. E depois vem as justificativas, uma mais esdrúxula que a outra, desde associar o número 2 com 9 e 3 pra tirar a média aritmética e elevar à potência da fatorial do número de estrelas em ursa maior e depois de tirar a raíz vai dar o número de milênios que a raça mística anterior à humana (exemplos mais recorrentes incluem atlantes e marcianos) ficou antes de ir pra outra galáxia e o grito de guerra deles era "gabbagabbaheiheishururelbleargh", palavra mágica que é mais ou menos equivalente ao nosso "AAAAAAAAAHHHHH!!!!!!!!!" até meter numerologia cabalística, que em seu próprio contexto já é algo fascinante enquanto criptografia mas que também tem seu lado pseudocientífico, pra resolver tudo. Adicione uma pitada de manipulação da física moderna e pronto, você tem uma superstição perfeita.

(O ritual descrito aqui e sua respectiva justificativa acabaram de sair da mente do autor, e qualquer semelhança com outros é pura coincidência [ou será que não????]).

B-U-L-L S-H-I-T. Não há palavras em português pra expressar melhor (pelo menos não que me venham a mente agora). Será que nesse turbilhão do cotidiano capitalista da sociedade atual nos tornamos tão bitolados ou distraídos que precisamos inventar esse tipo de coisa? Aliás, inventar não seria problema. Todos nós inventamos rituais, até eu que toco sempre as mesmas músicas na mesma ordem como primeiras e últimas de todo ano (Overture - The Who/Tommy + meu improviso usando cadência de subdominante menor em ré maior [esse ano também estou pensando em incluir Overture - Dream Theater/Six Degrees Of Inner Turbulence] + Rain Song - Led Zeppelin/Houses of The Holy no começo do ano e Shine On You Crazy Diamond I e II - Pink Floyd/Wish You Were Here + Tears In Heaven - Eric Clapton/Unplugged no fim) e isso é algo relativamente saudável, é bom pra preencher o vazio criativo e dar aquela sensação de começar com o pé direito ou acabar bem o ano. Já ouvir um cara que usa uma pirâmide na cabeça falar pra você (insira aqui algum ritual semelhante ao do parágrafo anterior que você conheça) e ainda vender livros com isso é o cúmulo, acaba com aquela mágica individualidade e ainda te deixa preocupado com tudo que, depois de um pouco de reflexão, é obviamente estúpido. Que ânsia é essa de tirar nosso destino de nossas próprias mãos? Já vi gente ter fé em tudo, desde deuses a sua própria semelhança a forças abstratas e imensuráveis, mas infelizmente começam a rarear aqueles que tem fé em si próprios e na humanidade. Pois sim, descobri recentemente que sempre fui uma pessoa fervorosa, mais até que a maioria dos não-ateus que conheço, mas minha fé sempre esteve no humano e na sua capacidade, no seu brilho panteônico, na sua arte ilimitada e na sua compaixão que pode surpreender a todos que estiverem dispostos a presenciar seu poder.

Já está na hora de amadurecermos, não de deixar de ser crianças curiosas e com pensamento livre (que é a virtude mais vital do filósofo), mas de abrir os olhos e enfrentar nossos próprios demônios, nossos complexos, e deixar de buscar abrigo em alucinações coletivas. Todos falam em paz, mas como ninguém pensou em ligar o que acontece em uma guerra com a insegurança da humanidade? Enquanto temermos o imensurável e nos jogar a sua misericórdia sem nem tentar controlar nosso destino com as próprias mãos, a 'utopia' da paz nunca chegará. Não culpe seus ancestrais por venerarem seus deuses, esteja orgulhoso que todos, sem excessão alguma, foram reflexões culturais muito bem talhadas e que serviram de bastião para a mesma cultura florecer e perpetrar até hoje.

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