20 de jan de 2009

Halfweg's Haven - I


"To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there's the rub:
For in that sleep of death what dreams may come,
When we have shuffled off this mortal coil..."

"But only in their dreams can men be truly free. 'Twas always thus, and always thus will be."

"The net of the sleeper catches fish."

* * *

-Quer um pouco de água?
-Por favor - disse como se um mortal respondendo à oferta do infinito
-Sabe, você tem muita sorte... é um terreno traiçoeiro este pelo qual você vagou até chegar aqui, onde a esperança se alimenta da sombra das dunas e do cintilar da areia na carcaça dos incompreendidos, tão escassas que justificam o nome desse lugar.
-De onde eu venho não se nomeiaria lugar parecido, com certeza a mesma palavra teria seu significado tão renegado que sua mera invocação seria o bastante para esvaziar o fôlego da alma dos que, por desventura, tivessem que usá-la em uma frase.
-E não é exatamente por isso que você está aqui?
Ele sorri com algum esforço e esvazia a areia dos sapatos. Depois de drenar o jarro de água em um gole só, tirou do bolso um livro velho e gasto ornamentado com um ouro afrodisíaco ao olhar que ainda podia fascinar alguns curiosos e que encantava os pássaros que pairavam ao nível da névoa de ferro e papiro que deixava passar apenas o Sol e proibia a vista das nuvens daqueles olhos que precisavam mais delas que quaisquer outros.
-Dos acolhidos aqui desejo apenas um nome em troca da hospitalidade.
-Aseinn, pelo menos é o que consta na capa.
-É o bastante.
Quando abriu o livro, toda a sua vida passou pela ponta de seus dedos. Estranhou como essa descrição era aproximada e inconclusiva no começo, mas depois que lembrou o porquê dele estar aqui se conformou. Aqui não havia lugar para relatos fiéis, disso ele já havia sido avisado pelo quarto porta-bandeira, mas ainda lhe restava alguma angústia sobre-humana para se importar.
A areia continuava seu movimento gracioso tendo o vento como seu éter inabalável. Os distraídos poderiam pensar que havia uma entidade governando o curso dessa cortina opalina, afinal, os lados menos cortantes de seu caminho costumavam levá-los ao lugar certo. Mas era algo dentro deles que fazia a tempestade menos penosa, e certamente era o mesmo que os trazia até mim.

* * *

O Sol tornava sua face plúmbea ao vislumbre dos presentes. Oito deles se curvaram diante do cintilar hipnotizante da água no imponente rio que cortava a terra sem misericórdia; sua corrente ambígua, forte demais para sustentar uma ponte e ainda assim inexpressiva para o movimento dos trirremes, esperando ansiosos por algo. Ao que o nono chega e finca seu cajado ebúrneo na colina adjacente, todos os astros se voltam para a cena e a Lua desce do seu trono celestial tomando suas vestes antropomórficas e quando irradia sobre a água os projéteis de suas crateras, agora olhos de um brilho perfeito demais para existir, ascende aos céus um dragão prateado. E das suas baforadas surgem as nuvens, do rebater de suas asas o céu azul, do sangrar de seus olhos o oceano, da sua investida contra a abóboda celeste e dos fragmentos do que já foi um par de chifres feitos de fogo sólido tudo o que a humanidade precisava para se libertar de sua prisão carnal e aniquilar seus anseios. O rio forma as correntes que seguram o dragão mais uma vez, e sua queda ferve os zodíacos, de onde surge um novo Sol e uma nova Lua. A Lua caída mergulha seu corpo nas montanhas e todos os seres cuja razão natural é estar junto dela em sua sina eterna irrompem em uma chuva de ouro que faz seu caminho até a última fortaleza de seus espíritos. Um novo dia nasce.

* * *

Dois anos buscando o covil de um titã podem te deixar um tanto apreensivo. Comportamento tal que não se deve, de forma alguma, demonstrar enquanto fala com seu objeto de interesse.
-Ah não, mais um? Quantos mais vou ter que receber nesse palácio amaldiçoado pela infâmia de seu dono? Venha, rapaz, não tenha medo. Já há anos não mato um dos seus, sabe como é, perde a graça com o passar dos séculos...
-Heh, não me assustam suas flechas de arrogância. Duvido que você conseguiria matar alguém que chegasse aqui, a sorte que me trouxe pelas portões do infinito é a mesma que mantém seus joelhos no chão desde o foco magnânimo ser criado. Qualquer caído que se preze por aqui com certeza é apenas mais um mártir do destino, não das suas mandíbulas.
-Cuidado como fala, mortal! Não te esqueças que são essas mesmas unhas que tecem o fio da verdade, assim como podem ser as mesmas a rasgá-lo.
-Formalidades a parte, o que esse carnação de bravura tem a dizer sobre a insurreição?
-Nada demais. Logo passa. É como uma maré paraláctica, somente uma ilusão da engrenagem do universo.
-Entendo...
-Lógico que não entende.
-Perdão ó sinistro lorde da psicodélia...
-Tomara que essa ponta que sinto seja da pedra cruel onde me repouso e não de uma ironia insensata.
-Ah mas não é mesmo, pode ficar tranqüilo. Deixo-te aqui com seus pensamentos, eles que tem o dom de agüentar seu cheiro enquanto ainda falam, mais uma vez. Mas eu volto, quando você menos precisar de companhia, prometo.
-Nem precisa, é inevitável mesmo...
E com essas palavras o gigante se despediu, o sol girando atrás de sua testa rachada enquanto os portões se fechavam mais uma vez. E cá estou eu mais uma vez a confrontar os pássaros do relojoalheiro, quem sabe dessa vez a morte me alcança de uma vez por todas...

* * *

"Dreams are as advice given by a very wise - very drunk - old man. A wealth of knowledge behind them, yes, but always, always to be treated with cynicism."

"Dreams are the bright creatures of poem and legend, who sport on earth in the night season, and melt away in the first beam of the sun, which lights grim care and stern reality on their daily pilgrimage through the world."

"Those dreams that on the silent night intrude, and with false flitting shapes our minds delude ... are mere productions of the brain. And fools consult interpreters in vain."

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