4 de jan de 2009

Razões para ouvir uma música de vinte minutos

Por pelo menos metade do século XX, a composição da música popular anglo-americana seguia algumas regras gerais bastante simples, como disse Roger McGuinn do The Byrds: "Antigamente, você fazia uma música e, se ela era boa, 15 pessoas cantavam suas próprias versões e ela vendia bem". Era o reino dos Jazz Standards, músicas de 3 ou 4 minutos que seguiam uma harmonia bastante padronizada de Jazz influenciada pelo Blues e principalmente pelo jeito dos imigrantes e descendentes italianos de New York cantar, tais como Frank Sinatra e Tony Bennett, e que até hoje são consideradas de bom gosto, inclusive ajudando a construir uma atmosfera muito singular que todos conhecemos bem. Come Rain or Come Shine; Sattin Doll; Take the 'A' Train ou Hard Times (Who Knows Better than I?) são exemplos seminais. Mas na década de 1950, o Rock'n'Roll, a combinação da harmonia do Blues com compassos simples notável principalmente pelo ritmo dançante, iria mudar o estilo da audiência da geração de 1940. Johnny B. Goode, considerada por muitos a peça fundadora do Rock'n'Roll (uma cópia foi inclusive mandada com a nave Pioneer) e obra prima de Chuck Berry inspirou muitos neófitos, ainda crianças, a seguir a carreira musical. Keith Richards dos Rolling Stones atribui a essa música toda sua carreira: "Johnny B. Goode... knocked me out, floored me. After that, I knew what I was going to do, what I was going to be." A combinação do Rock'n'Roll americano e do Skiffle britânico, outro estilo baseado no Country mas com algumas semelhanças estilísticas do Jazz, abriu os olhos de jovens ingleses para o possível sucesso comercial com a música.

Entre várias bandas influenciadas por esse contexto, The Beatles destacam-se por terem fundamentalmente destruído as velhas regras de produção e venda musical e por ter um lineup (não apelidado de "the fab four" a toa) composto por revolucionários, cada um a seu jeito. John Lennon e Paul McCartney contribuíram monumentalmente para o Pop e Rock com melodias experimentais e audaciosas e idealizaram o primeiro concept album da história, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (há controvérsias); Ringo Starr redefiniu o papel de um baterista, que antes era apenas julgado pela qualidade de seus solos, com batidas complexas e tão sutis que fluem perfeitamente com a música sem despertar a menor suspeita de que um exercício genial está marcando seus compassos e George Harrison, discípulo de Ravi Shankar, mestre na sitar indiana e provavelmente o músico oriental mais famoso no ocidente, que usou da música clássica indiana para refinar o pop dos Beatles e estabelecer um legado similar para outras bandas posteriores que usaram do mesmo som. Depois da Beatlemania, uma onda de vanguarda perpetrou pelas bandas dos anos 60, dando origem ao Hard Rock e o Psychedelic Rock, que nos anos 70 iriam se fundir para criar o Heavy Metal, e a constante necessidade de virtuosismo tanto teórico quanto prático de alguns grupos culminou no Progressive Rock.


"Remember the 60s? You know, that era that a lot of people have these...glorious memories of? Which, they really weren't that great those years, but one thing that did happen during the 60s was: some music of an unusual experimental nature did get recorded and did get released." Frank Zappa assim descreve os anos 60 como o apogeu da liberdade artística em termos de derivados do Rock. Curiosamente, as únicas bandas sobreviventes dessa década continuariam como as mais populares dos anos 70: Rolling Stones, famosos por fundir Rythm & Blues e Rock'n'Roll de um jeito único; The Who, que agora já se tornava mais experimental especialmente pelo uso pioneiro de sintetizadores; Led Zeppelin, arquitetos do Heavy Metal e Pink Floyd, o mais progressivo da leva.


Em Ummagumma; Atom Heart Mother; Meddle; Wish You Were Here e Animals, o Pink Floyd gravou ao menos uma música excepcionalmente longa, respectivamente: Sysyphus (13:26), The Narrow Way (12:17) e The Grand Vizier's Garden Party (8:44); Alan's Psychedelic Breakfest (12:59) e Atom Heart Mother Suite (23:44); Echoes (23:31); Shine On You Crazy Diamond (juntas, as partes I e II somam 26:01); e Dogs (17:01). O principal marco nessas músicas é o uso de passagens instrumentais preponderantes e muitas vezes abstratas, como o uso de um circuito invertido do wah-wah de 10:49 até 14:43, aproximadamente, em Echoes. Reza a lenda que essa mesma música foi composta para o filme 2001 : Uma Odisséia no Espaço e de fato é possível sincronizar Jupiter And Beyond The Infinite com a faixa harmoniosamente. Roger Waters também afirmou que Andrew Lloyd Webber roubou a progressão ascendente/descendente do tema para O Fantasma da Ópera em uma entrevista sobre seu álbum solo Amused To Death: "Yeah, the beginning of that bloody Phantom song is from Echoes. DAAAA-da-da-da-da-da . I couldn't believe it when I heard it. It's the same time signature - it's 12/8 - and it's the same structure and it's the same notes and it's the same everything. Bastard. It probably is actionable. It really is! But I think that life's too long to bother with suing Andrew fucking Lloyd Webber", e também cita seu ressentimento na música It's A Miracle, do mesmo álbum solo, na estrófe: "We cower in our shelters, with our hands over our ears/Lloyd Webber's awful stuff runs for years and years and years/An earthquake hits the theatre, but the operetta lingers/Then the piano lid comes down and breaks his fucking fingers/It's a miracle". Para Ummagumma, os membros compuseram músicas solo, uma decisão que eles viriam a arrepender depois pela falta de maturidade musical, mas que ainda são vistas como legítimo Pink Floyd por fãs. Atom Heart Mother Suite, a mais longa do catálogo da banda (considerando que Shine On You Crazy Diamond foi dividida em 2 partes) também teve a ajuda de Ron Geesin e se destaca pelo acompanhamento da Abbey Road Session Pops Orchestra e do John Aldiss Choir. Shine On You Crazy Diamond é um tributo ao ex-membro Syd Barret (Shine on You crazy Diamond - as maiúsculas formam "SYD"), que foi expulso por seu abuso descontrolado de drogas que o fazia interromper shows e gravações por cair em estados catatônicos e por problemas psicológicos depois de gravar The Piper At The Gates Of Dawn e metade de A Saurceful Of Secrets. E o que é o magnum opus The Dark Side Of The Moon senão uma música inteira no lado A e (descontando Money que praticamente quebra toda a condição do álbum até o momento mas cuja presença se torna tão imprescindível quanto das outras faixas por esse memso efeito) outra no lado B?

Por mais incrível que pareça, os Rolling Stones também tiveram seu lado psicodélico. Their Satanic Majesties Request de 1967 é a única excessão na discografia da banda em que há de fato algum vanguardismo ou pelo menos uma tentativa. A resposta dos críticos na época foi extremamente dividida, por um lado, parecia um álbum feito pretensiosamente para igualar ou superar o groundbreaker Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band mas outros o viam como inventivo e bem-feito em termos de composição e arranjo orquestral, e muitos fãs o consideraram como uma alternativa ao pop mais puro dos Beatles, tendo ganhado uma espécie de cult following entre punks principalmente. Embora tenha atingido grande sucesso de vendas, ficando em terceiro lugar nas paradas britânicas; segundo nas americanas e primeiro nas australianas, seria uma direção que a banda nunca mais ia seguir, preferindo manter-se com o tradicional R&B. O álbum posterior, Beggars Banquet, já demonstra o retorno a essas raízes, e foi melhor visto pelos críticos além de conter singles melhor-sucedidos mas sem nada revolucionário ou muito novo.

Depois de The Who Sell Out, Pete Townshend se encontrava em uma crise profissional. O single I Can See For Miles não se tornou o hit que ele esperava, mesmo com número significante de vendas. Escrever pop singles parecia estar fora de questão para esse ego gigantesco, e foi então que seu trabalho se tornou introspectivo e mais profundo em termos filosóficos. Desse momento da existência do Who, surgiu a primeira Rock Opera propriamente dita da história: Tommy. Em 24 faixas interligadas (74:00), o álbum conta a saga de uma criança traumatizada que cresce surda, cega e muda e que depois se torna uma espécie de neo-Messias por uma cura milagrosa mas que é desacreditado por seus próprios discípulos no fim, enquanto chega a um novo estado de iluminação espiritual sozinho. Uma adaptação para cinema também foi feita com músicos famosos como Eric Clapton e Tina Turner, e tanto o álbum quanto o filme foram sucessos comerciais e críticos. Musicalmente, o álbum é um exemplo precoce do uso de sintetizadores que caracterizariam o som da banda nos anos 70 e de alguma ambição musical, mas somente a próxima Rock Opera seria aclamada como a personificação da complexidade de construção de vozes e sintetizadores. Quadrophenia, centrada em alguns dias da vida de Jimmy, mod britânico, e no curso de eventos que levaria ao aparente suicídio, é considerado até mesmo por Townshend como o álbum mais grandioso da banda: "The music is the best music that I've ever written, I think and it's the best album that I will ever write". As músicas revolvem em 4 temas feitos para representar cada membro da banda que se tornam verdadeiras sinfonias em medleys instrumentais onde são misturadas, criando contra-ritmos e modulações no mínimo fascinantes e panteônicas em termos de criatividade. Townshend continuaria a experimentar com a 'tradução' de pessoas em sons, e lançou um software capaz disso há pouco tempo, disponível para um uso trial no site oficial, mas seria a última Rock Opera da banda como um todo, já que Keith Moon, um dos maiores bateristas de todos os tempos e componente vital do som do The Who viria a falecer alguns anos depois.Townshend continuou lançando outras como álbuns solo, notavelmente Psychoderelict e The Boy Who Heard Music.


O Hard Rock mais straightforward do Led Zeppelin não se caracteriza por esforços semelhantes, mas a fuga do limbo criativo é bastante presente. Enquanto apenas 2 ou 4 músicas da banda sejam semelhantes em algum sentido (o consenso é Since I've Been Loving You/Tea For One, mas The Song Remains The Same/Ozone Baby são claramente inter-influenciadas), todas as outras são diferenciadas profundamente e traçam influências diversas, mesmo que todas baseadas no Blues. Nos shows gravados em 1973 no Madison Square Garden para o filme The Song Remains The Same, seqüências fantasiosas idealizadas pelos membros para músicas com seus próprios solos instrumentais ou vocais (Jimmy Page com Dazed And Confused; John Paul Jones com No Quarter; John Bonham com Moby Dick e Robert Plant com The Song Remains The Same/The Rain Song) são o mais próximo de um exercício abstrato que eles já chegaram, fora a 'orgasm part' interludiando Whole Lotta Love. Mas mesmo assim, músicas como Stairway To Heaven e The Battle of Evermore não deixam dúvida sobre a profundidade que seu trabalho chegou e a capacidade de introspecção que Robert Plant tinha enquanto liricista. O uso de compassos complexos e mistos idealizados principalmente por John Bonham e John Paul Jones também perpetra por seus álbuns, principalmente no contra-ritmo 4/4 contra 3/4 da bateria contra melodia em Kashmir, e Jimmy Page contribui com escalas asiáticas e celtas não antes usadas no Hard Rock. A sonoriedade de aproximações cromáticas com power chords em bases modais que Page popularizou marcam até hoje as vertentes do Heavy Metal profundamente, e o estilo 'poderoso' do baterista lhe rendeu até um verbete na Britannica: "John Bonham is the perfect model for any Hard Rock or Heavy Metal drummer that followed afterwards". Tudo isso era costurado pelas orquestrações e arranjos harmoniosos de John Paul Jones, que também contribuiu com alguns dos riffs mais famosos da história, dentre eles Black Dog e Good Times Bad Times. Achilles Last Stand (10:23) é o cúmulo de todos esses elementos juntos, beirando a fronteira do Hard Rock e Heavy Metal e se sobressaindo em ambas categorias ao mesmo tempo. É a prova final do que foi a banda mais popular dos anos 70.


Ainda hoje, os herdeiros de todas essas influências continuam, como Al Kooper disse, "Kicking with extreme force all boundaries of music". Bandas como o Dream Theater fundiram o Heavy Metal com o Progressive Rock pra formar o Progressive Metal: virtuosismo ao extremo com distorção no talo. Six Degrees of Inner Turbulence, Metropolis Pt.2 : Scenes from A Memory e Octavarium, todas com faixas ligadas que sozinhas já ultrapassam a marca dos costumeiros 4 ou 5 minutos de hoje em dia, ás vezes atingindo até mais meia hora, são a reflexão de toda a história da revolução na música popular que aconteceu no século passado, agora também misturado com referências da música clássica, especialmente do romantismo, e mais marcado por instrumentais que nunca. Os vocalistas parecem estar cada vez mais se convertendo em tenores de ópera, os guitarristas transformando seu instrumento num orgão de tuba distorcido e violentamente veloz, os bateristas criando muralhas de percursão e os baixistas mostrando que fritar a penta não é só coisa de guitarrista. Mais os sintetizadores que agora são integralmente parte do Rock, especialmente pela influência do The Who e Yes, cujos efeitos fazem o complemento perfeito tanto para a base quanto solo e também é dotado de muito virtuosismo, como de suas contra-partes.

Os mainstreamers podem olhar torto para esses gêneros, mas eles ainda se mostram como o estandarte das revoluções culturais da nossa era. Pode parecer custoso para muitos, mas sem dúvida é tão necessário dar uma chance a esses álbuns e bandas quanto para os Pop Rocks pasteurizados. Acredite, se há uma razão para ouvir uma música de 20 minutos é que estas são as únicas capazes de gerar uma epifania, ou um baque filosófico, expandir as fronteiras da nossa própria compreensão e interpretação como os muitos pioneiros antes de nós, ou pelo menos se libertar das temerosas correntes do cotidiano e padronização. "Trust me, it can save your life".

(Echoes sincronizado com Jupiter And Beyond The Infinite:
http://www.youtube.com/watch?v=mfgoVZswC4k&feature=PlayList&p=F3805F0D2AAD8B6D&index=0&playnext=1).

(Este post foi inspirado por outro do blog Nós Mesmos [a.k.a. o blog do anglo]:
http://naocabenumblog.blogspot.com/2008/10/razes-para-ver-um-filme-de-quatro-horas.html).

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