3 de fev de 2009

Paradoxo de Harighals

Imagine que alguém esteja te perseguindo, seja lá qual for a razão, e você não pode deixá-lo te alcançar. Você tem um estilingue e um saco de carvão nas mãos. O que fazer?

Consideremos as variáveis: A diferença de velocidade; você; o perseguidor; a qualidade do carvão; o alcance e estado do estilingue; quanto falta para você chegar num beco sem saída; a meteorologia; a energia de ambos; fator absurdo e o terreno.

Se ele estiver correndo mais rápido, é inevitável que te alcance. Se não, que você saia de sua vista. Entretanto temos o fator energia intricamente relacionado com velocidade e podendo concluir que quanto mais energia gasta = mais velocidade e conseqüentemente menos energia reservada, dando espaço ao fator tempo. Tempo este que determina também sua distância ao beco, considerando que se um dos envolvidos parar de correr, o problema deixa de existir (se for o perseguido, pelo perseguidor alcançá-lo; se for o perseguidor, pelo perseguido fugir). Considerando ser este um sistema com fim pré-determinado e previsível por uma formulinha (vejamos... 'a sua distância até o beco' = 'sua energia gasta em função do tempo' = 'sua velocidade'; 'a distância dele até você' = 'diferença de gastos energéticos' = 'diferença de velocidades', faz um gráfico vocêXele e depois de calcular a área da figura você chega em algum lugar), passamos para os outros fatores:

1 - A qualidade do carvão - Se estiver esfarelando de tão ruim, pode deixar uma trilha preta que o perseguidor obviamente usará para continuar mesmo depois de te perder de vista. O que iria inevitavelmente levá-lo ao beco sem saída, onde você também está. Se for um bom carvão, você pode tentar jogar cubos nele na esperança de fazê-lo parar, mas isso iria agravar sua curvatória de velocidade pela energia gasta adicional em arremessar e calcular além de te distrair do fator terreno, vital já que um tropeção certamente dará tempoXvelocidade suficiente para o perseguidor te alcançar. A melhor alternativa então seria jogar tudo no chão e aproveitar a diminuição do peso para diminuir energia gastaXvelocidade, e com alguma sorte enquanto ao fator absurdo ele talvez seja prejudicado. Concluímos que a qualidade do carvão é irrelevante pois tem desvantagens potenciais pesando mais para todas as possibilidades.

2 - O alcance do estilingue - Sem munição (não, o carvão não cabe.) não há muito o que fazer. A não ser que você tente achar pedrinhas no chão. Mas isso é um problema pois causará uma distração pior ou igual àquela do bom carvão e então o único jeito é atirar o próprio estilingue. Se ele estiver em bom estado, talvez chegue a dissipar a atenção do perseguidor. Se não ele só continuará correndo imaginando o que era aquilo. O alcance, por falta de projéteis, é irrelevante.

3 - Meteorologia - Aqui consideramos parte do fator absurdo, por ser amplamente desconhecida. Mas se trabalhar ao seu favor, pode lesar muito as chances do perseguidor, fazendo-o se cobrir da chuva ou até perder mais energia num calor escaldante. Facetas estas que se repetirão em você, por ser uma faca de dois gumes inescapável por ambos. Então, se os dois lados da equação ganham ou perdem o mesmo 'x' ou 'y', consideramos irrelevante também

4 - Você - Está apenas preocupado em fugir. O stress pode ser um agravante temporário, mas provavelmente a calma prevaleceria depois de algum tempo de corrida. Mesmo stress contrabalanceado pela provável euforia do perseguidor. Ambos igualados, ambos iguais. Irrelevante.

5 - O fator absurdo - Não digno de testes, o máximo que você pode pedir é que um meteoro atinja a cabeça dele ou que ele sofra uma combustão espontânea. Tão faca de dois gumes quanto o tempo, porém muito mais sutil e potencialmente fatal.

6 - Ele - Aqui está sua esperança. Dependendo do grau de oportunismo e esperteza do perseguidor, você deve traçar seu plano de ação:

Muito burro - desligado do ambiente e focado em te alcançar. Nada vai fazê-lo parar e ele fica à mercê da formulinha '1'. As chances de ele se distrair com qualquer utilidade do carvão ou do estilingue são mínimas. Apenas continue correndo.
Burro - mais sucetível ao carvão pois pode fazê-lo se descoordenar ao tentar evitá-lo assim concedendo a você alguma vantagem. Provavelmente não ligaria para o estilingue, mas estaria de longe mais ameaçado por tiros que qualquer outro.
Normal - praticamente igual ao Muito burro, a justificativa porém seria uma suspeita do que você esteja tentando com suas alternativas. Mais ligado ao ambiente, talvez use seus instintos para guiá-lo pelo terreno, e é por aí que você deve atacar: jogue o carvão no chão e espere que ele tropece. Se não tropeçar, chegamos à conclusão do Muito burro.
Esperto - O que tem mais chances de te pegar. Qualquer coisa que você tente atirar nele vai ser usada com o maior grau de oportunismo para te atingir também. Aqui você está dependente do fator absurdo, porém não pode deixar de segurar o saco de carvão (que ele usaria pelos projéteis), e há poucas chances dele ser atingido pelas suas pedras, talvez continue te provocando para que a distração faça todo o trabalho por ele.
Muito esperto - Já pensou em tudo o que você está lendo aqui. Depois de pensar meticulosamente, vai decidir apenas continuar te perseguindo assim evitando as probabilidades aversas do estilingue e carvão, não importa o que, e imune ao fator absurdo por estar muito bem preparado. Praticamente igual ao Normal e o Muito burro.

Se organizarmos num plano geométrico as tendências de inteligência:

Muito burro ---- Burro ---- Normal ---- Esperto ---- Muito esperto

E as respectivas chances de te alcançar:

Previsíveis ---- Baixas ---- Previsíveis ---- Altíssimas ---- Previsíveis

Obtemos um plano com extremos e meio iguais. Teoricamente, então, não há plano, apenas um ponto. E se há apenas um ponto, não há diferenças teóricas enquanto chances. E já que as chances são reflexões práticas da projeção teórica, todos os fatores se anulam por serem irrelevantes e você chega em 0 = 0. Mas não pode ser 0 = 0 pois a projeção prática tem um fim inevitável, ele te alcançando ou você fugindo. E além disso, os meios do plano se encontram com a progressão pré-concebida teórica. Chegamos numa caixa de schrödinger, e o universo explode porque você está fugindo de um cara com um saco de carvão e um estilingue.

Mas ainda há um último: o absurdo multiversal superposicionado. Se há infinitos universos com linhas de possibilidade diferentes, há inifinitas chances de algum bom-samaritano-quântico descobrir um jeito de ir para o seu universo, então você com certeza vai ser salvo a tempo. Mas há também infintas chances de um deles chegar onde você está neste exato momento. Já chegou? Humph... E agora? Tá, talvez não hajam multiversos, ou pelo menos seja impossível passar de um pra outro. O universo explode mesmo assim.

(E vocês, caros leitores, viram o que a insônia é capaz de fazer com um pobre aluno de segundo colegial. Obrigado e boa noite).


4 comentários:

bgM disse...

Já que, como informado anteriormente, eu raramente tenho comentários para os seus posts, colocarei em bolinhas/tracinhos na falta de bolinhas:
-Insônia. No primeiro dia de aula. O que isso te diz?
-O fator metereológico não seria irrelevante se um dos dois estivesse de preto, por exemplo.
-Talvez os multivesos existam, o que está em falta são bons samaritanos quanticos.
-Diga-me, quais são as probabilidades de um fator absurdo se você chegasse a essa conclusão no meio de uma perseguição?

Harighals disse...

-Eu tenho muito problema com ataques de ansiedade, um troço parecido com asma mas não ao ponto de perder a respiração mesmo, embora incômodo o bastante pra te deixar a noite acordado tentando respirar direito... fora isso, tava dando pra ver várias constelações recentemente, pra que dormir quando o céu se abre só pra você?
-Hm, não considerei o fator roupa, vou publicar uma versão 2.0 em breve.
-Ah, eu seria um bom samaritano quântico dada a escolha, quer dizer que há infinitas chances de um como eu existir... sua incrédula na humanidade...
-Altas suficientes pra notá-lo, mas não para levá-lo tão em conta. Aliás, seria sempre assim. Desconsiderando Sartre e tudo mais pelo menos.

bgM disse...

-Não posso imaginar voce e ansiedade na mesma frase. A não ser talvez que envolvesse a visita do Sagan. Ou a reencarnação do G. Carlin.
-Looking forward to.
-Existem probabilidades... mas imagine: voce tem um zilhao de universos por ai e voce vai voltar pra ajudar os pobres terraqueos? Sem falar que a perspectiva de outro universo devia ser muito menos complacente. Eu incrédula? Imagine.
-Outro dia voce me explica.

bgM disse...

você.
vai.
me.
contar.

aguarde-me.