9 de mai de 2009

Quintessência

Reza a lenda: quando 20 rotações da blue marble haviam me epicentrado e desepicentrado do universo vez após vez, minha mãe me colocou no piano, mãozinhas singelas ainda levemente atrofiadas depois da mudança brusca do meu apê de solteiro, e dedilhou para essa pobre alma o prelúdio nº1 de Bach, gotejando com meus dedinhos a tão famosa melodia que Gounod compôs por cima dela pra jorrar a infelizmente desgastada Ave Maria (aka musiquinha de casamento #2, geralmente cantada por algum pimpolho digno de tal) pelos éteres sonoros das proximidades. Não que fosse a primeira vez que cordas percutidas me atingissem, se levar em conta concertos transuterinos brotando seu caminho ao meu protótipo, mas até hoje um efeito meio anti-clockwork orange chega quando ouço essa música, sinto cheiro de infância e gosto de leite quente, afundando num sofá relativamente titânico e dormindo no ato (tocada direito, por mais rarefeitas que sejam as vezes)... Bons tempos. Bobos tempos.

Daí você percebe que uma melodia faz mais sentido pra você que quaisquer potências de 10 de saraivadas de palavras. Um singlezinho besta ou produção em massa de Grammy/Billboard te irritam profundamente, como se suas roupas encolhessem e você tivesse que aguentar aquele desconforto sem chance de sair correndo desnudo pelas pradarias. Jingles, nem se fala. Mas quando a música ultrapassa sua carapaça quasimoribunda e chega onde quer que as músicas chegam, ah, aí ela nunca mais sai da sua vida. Não demora até que a relação dos outros com a música te deixe frustrado, esquisito, transtornado, como se estivessem cuspindo na cara da sua alma e você nem limpar podia. Pensar sobre isso? Seria como jogar um lençol na frente do Sol, você consegue enxergar a forma agora, mas era o ofuscar e cegueira progressiva que tornavam a experiência factível. Não, levaria algum tempo depois da sua criancisse de 8 anos para pensar nisso de forma tangível.

Quanto mais conhecia os outros, mais eles soavam como melodias para mim. Mas a frustração, o soco na cara do sentido da vida, afastava aqueles abstratos de mim e vice versa. Não literalmente, não que amizades fossem quebradas em prol dessa alienação espontânea, nem que eu parasse de interagir de forma alguma, mas nunca nenhum deles receberia a permissão para adentrar meu ego e ver a minha essência. Aquela que eu já sabia que estava lá, silenciosamente guiando e agindo como eminência parda nos meus atos, que já suspeitava ser o lugar pr'onde a música ia. A decepção virou raiva, a solidão imposta por acontecimentos paralelos serviu de catálise para o período mais destrutivo da minha vida, e para a segregação preconceituosa de gêneros outrora vistos por igual, como se o julgamento antes fosse de fato gravação-por-gravação, não artista-por-artista, show-por-show ou álbum-por-álbum. Esse foi o momento mais Pink (The Wall) da minha vida, agora sim a linha estava traçada e não permitia ninguém atravessá-la. Hoje vejo que eu agia como um pastor evangélico, chamando de 'profano' todo aquele que antes era 'comum; normal'. Não mais um diferente, sim um avatar da verdadeira música.

Seu mundo cai quando você amadurece um pouco mais e olha pr'aquilo com nojo, repulsa, vergonha. Parece que os demônios que fizeram de seus atos sua posse não jaziam mais presentes na carapaça, e por mais sensato que 'não rolar em merda para se limpar' pareça, retrospectivar esse período de dois conglobabilônimerados se tornou minha assombração pessoal por algum tempo.

Se hoje eu te enxo o saco por causa de uma musiquinha chata, pode ficar tranquilo(A), é só bricadeirinha. Mesmo durante a era macartista, aquela musicossimilhança continuou crescendo mais e mais tomando a essência de sustentáculo. Era um sexto sentido, já. E por mais que eu tentasse me convencer que aquilo era síndrome de 'quem procura acha', nada reprovava a hipótese de que toda a minha gema sentemática era uma conseqüência do que eu estivesse ouvindo. Fazia tanto sentido, a música me ouvia, não o contrário, ela me achava quando eu precisava e as engrenagens psicológicas prosperavam funfantes por ela, melhor que prescrição de serpentarius. Daí o meu engatinhante conhecimento teórico/prático teve um boom inesperado, um apocalipse no sentido literal do grego. As coisas se encaixavam agora e eu podia viajar e paralacticar sobre tudo que eu já tinha ouvido. Foi a primeira vez que me senti pronto para compor.

Mas você sabe, né, que compor é um desses verbos que foi esmerdeado pelos séculos, principalmente por essas últimas décadas da era de peixes. O senso comum (aka o arqui'nimigo da humanidade) é que qualquer coisa é uma composição, qualquer coisinha. Um compositor, como Frank Zappa diria, não é nada mais que 'um cara que chega forçando sua vontade em moléculas de ar incautas', um abstrato com bom ouvido, mas a composição é algo maior que ele. Se alguém 'compoe', é porque percebeu que o prelúdio de eventos que levou o tal até o momento estava berrando de necessidade por algo maior que o ser humano. Uma 'composição' é algo maior que um 'compositor', por mais ínfima que possa ser em qualquer outro quesito. É aquela última sonda saindo de um planeta em chamas com um tico de esperança, sob o incogniscível olhar do destino. Doravante (weee! /o/) esta fôrma plotínica, muita música por aí sai da categoria de 'composição'. Tem experiências, improvisos, encomendas, respostas, tentativas, traduções, vanguardas, até canções!. Mas tantas composições quanto ratos loiros num navio de carga. Quer saber por que todo compositor autoproclamado é arrogante? Porque ele não é, não sacou ainda que ele devia ser menor que o produto de seu ofício.

Eis que mergulho nas profundezas mais poseidônicas do meus egos e alter egos, procurando pelo gatilho, pela explosão de psicocabulosidéias. Tem gente que me pergunta se eu passo minha vida biológica lendo ou estudando (ha! se você se acha mais burro que eu, tá no mais absoluto de todos os fins absolutos do poço, chico), mas quaisquer matérias que repousam nas minhas rubras almofadinhas eletrizadas foram consequência de procurar identidades, assimilações, um verdadeiro lar para minhas idéiathhhhhhhh. hhhhhh. h.

Você achou, ela pessêga e você transmite ela em um leitmotif. Outra cá, outra lá, quando me dou por vivo, jazem 15 riffs na minha frente. Olha pr'os lados, conta até 10. . . . . . . . . . ... Onwards and upwards!

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