31 de jan de 2009

Quotes Autolíticos



Epitáfios:

"This is the last of Earth! I am content!" - John Quincy Adams (1767 - 1848)
"Uma tumba agora basta para aquele a quem o mundo não foi suficiente." - Alexandre Magno (356 a.C. - 323 a.C.)
"That's all, folks!" - Mel Blanc (dublador do pernalonga) (1908 - 1989)
"S = k . log W" - Ludwig Boltzmann (sua fórmula para sistemas de entropia, cuja refutação na época o levou ao suicídio) (1844 - 1906)
"Don't try" - Charles Bukowski (1920 - 1994)
"Here lies a man who knew how to enlist the service of better men than himself." - Andrew Canergie (1835 - 1919)
"I am ready to meet my maker. Whether my maker is prepared for the great ordeal of meeting me is another matter." - Winston Churchill (1874 - 1965)
"Life is a jest and all things show it/I thought so once and now I know it." - John Gay (1685 - 1732)
"Ele descansa em algum lugar por aqui." - Werner Heisenberg (sobre seu princípio da incerteza) (1901 - 1976)
"Excuse me, I can't stand up." - Groucho Marx (1890 - 1977)
"Here lies/Lester Moore/Four slugs/From a 44/No Les/No Moore". - Lester Moore (1871 - 1924)
"Is this your card?" (acima de uma carta de 3 de paus) - Penn & Teller (ainda vivos)
"Here lies the ashes of a man who had the habit of postponing everything until tomorrow. Though he bettered on his final day and really died 31st of January 1972." - Fritiof Nilsson Piraten (1895 - 1972)
"Curiosity did not kill this cat!" - Studs Terkel (1912 - 2008)
"I told you so, you damned fools" - H.G. Wells (1866 - 1946)

Últimas palavras:

"Is it not meningitis?" - Louisa May Alcott
"Wait a minute...you dick..." - Papa Alexandre IV
"Pardonnez-moi, monsieur. Je ne l'ai pas fait exprès." - Maria Anotnieta (depois de tropeçar no pé de seu carrasco)
"Não atrapalhe meus círculos!" - Arquimedes (para o soldado romano prestes a matá-lo sem tê-lo reconhecido)
"Well, gentlemen, you are about to see a baked Appel." - George Appel (antes de ser eletrocutado)
"Die, I should say not, dear fellow. No Barrymore would allow such a conventional thing to happen to him." - John Barrymore
"Aplaudam amigos, a comédia acabou." - Beethoven
"What is this?" - Leonard Bernstein
"I should never have swithced from Scotch to Martini." - Humphrey Bogart
"I'm going away tonight." - James Brown
"A peça acabou! Aplaudam!" - Caesar Augustus
"Et tu, brute?" - Nem precisa falar...
"Hello." - Graham Chapman
"In keeping with Channel 40's policy of bringing you the latest in blood and guts and in living color, you are going to see another first -- attempted suicide." - Christine Churbbuck (âncora suicida ao vivo)
"I'm bored." - Winston Churchill
"Thank God. I'm tired of being the funniest person in the room." - Del Close
"Lady, you shot me!" - Sam Cooke
"Damn it... Don't you dare ask God to help me!" - Joan Crawford (para um empregado orando ao lado)
"Cadê meu relógio?" - Salvador Dalí
"Get the fucking nuns away from me!" - Norman Douglas
"Hurrah for anarchy! This is the happiest moment of my life." - George Engels (logo antes de ser enforcado)
"Now why did I do that?" - General William Erskine (depois de se jogar de uma janela)
"I've never felt better." - Douglas Fairbanks
"I'd hate to die twice. It's so boring." - Richard Feynman
"If you have a message for the devil, give it to me, for I'm about to meet him!" - Lavinia Fisher
"Hey fellas! How about this for a headline for tomorrow's paper: 'French Fries'!" - James French (executado na cadeira elétrica)
"I'd like to thank my family for loving me and taking care of me. And the rest of the world can kiss my ass." - Johnny Frank Garrett
"I'd rather be fishing." - Jimmy Glass (antes de ser eletrocutado)
"Vamos deixar os romanos relaxarem depois de tanto esperar pela morte de um velho" - Aníbal Barca
"Deus vai me perdoar, é a profissão dele." - Heinrich Heine
"When I hear that a man is religious, I conclude he is a rascal!" - David Hume
"Muito pelo contrário!" - Henrik Ibsen (respondedo ao comentário de melhoras por uma enfermeira)
"-I wish I was skiing. -Oh, Mr. Laurel, do you ski? -No, but I'd rather be skiing than doing what I'm doing." - Stan Laurel (conversando com uma enfermeira)
"Die, my dear? Why that's the last thing I'll ever do!" - Groucho Marx
"Tomorrow, I shall no long be here." - Nostradamus (pelo menos uma dentro!)
"Yes, a bullet-proof vest." - James Rodgers (antes de ser executado por fuzilamento, quando lhe perguntaram seu último desejo)
"I can't believe, after all this time, it was a bloody banana that killed me." - Ivanka Perko (e foi mesmo!)
"Eu não contei metade do que vi." - Marco Polo
"Last words are for fools who haven't said enough!" - Karl Marx

26 de jan de 2009

新年快樂 !!!

Quebrar a rotina é algo bom. Especialmente com temas de textos. Imagino que todos já estejamos ansiosos pela destruição dessa seqüência devaneio-antepassados-rock-devaneio-rock-maluquice que ameaça continuar por aqui, e, aproveitando a ocasião, o melhor jeito de fazer isso parece ser comentar sobre o feliz acontecimento de 26 de janeiro do outro lado da blue marble - O ano novo chinês.


O ano novo chinês tem um profundo significado cultural e mitológico para os chineses, civilização milenar conhecida pela indentidade nacional fortíssima e que resistiu por muitos séculos à influência externa, especialmente europocentrista, se tornando tão poderosa quanto. Enquanto mito, o festival relembra a história de Nian, "ano", que viria sempre nessa mesma data para raptar crianças e destruir colheitas saciando sua fome no processo. Para evitar, os aldeãos começaram a colocar cestos de comida na porta de suas casas, apaziguando Nian antes do prejuízo ser causado. Ao ver que Nian tinha muito medo da cor vermelha, eles penduraram lanternas e explodiram fogos de artifício ocasionalmente para espantá-lo de fato, e Nian nunca mais iria aterrorizar a aldeia. Eventualmente foi capturado por Hongjun Laozi, "O Grande Equilibrador", um dos Três Puros taoístas, e desde então é representado como sua montaria.


O ano novo chinês também é época do mais intenso movimento migratório humano do mundo, o Chunyun, quando pessoas de todos os lugares da China e residindo fora também se reúnem com suas famílias para as festividades, com números superiores a 2.260.000.000 (bilhões) de viajantes registrados em 2008. Uma seqüência muito peculiar de rituais precedentes também é seguida para o evento:

-Limpeza completa da casa para evitar o azar,
-Alguns pintam suas casas com uma camada de tinta vermelha,
-Altares com ídolos budistas e taoístas são queimados e as estátuas são limpadas com muito cuidado,
-Taoístas queimam bonequinhos de Zao Jun, deus da culinária, como oferenda para o mesmo. Reza a lenda que todo o ano novo, Zao Jun ascende ao palácio do Imperador de Jade e faz relatórios anuais do comportamento de todas as famílias, influenciando assim sua sorte.
-Um jantar cerimonial com pratos regionais ao norte ou sul da China, de certa forma comparável com nossa ceia de Natal, onde toda a família se reúne.


No primeiro dia do ano novo:
-Muitos, especialmente budistas, promovem abstinência de carne em prol da longevidade,
-Visita aos patriarcas da família,
-Trupes de dançarinos vestidos de leões são convidados para uma cerimônia nas casas,
-Crianças e adolescentes são presenteadas com caixinhas vermelhas com dinheiro,
-Queima geral de fogos de artifício.

No segundo:
-Filhas casadas vão visitar suas famílias de origem, algo não muito ocorrente durante o ano,
-Cães são homenageados (Eduardo, se estiver lendo isso, esse pedaço foi escrito para sua honra),
especialmente com alimentação mais farta que de costume. Acredita-se que o segundo dia no ano novo seja o aniversário de todos os cães da China.
-Orações são dedicadas aos ancestrais.


O terceiro dia é relativamente agourento, de acordo com alguns costumes. Por exemplo, crê-se que é mais fácil entrar em discussões hostis nesse dia e por isso são desencorajadas visitas a amigos. Geralmente neste dia se conduzem mais visitas a cemitérios, principalmente famílias que tiveram um parente próximo morto há menos de 3 anos. Segue-se o mesmo para o quarto dia.
Para o quinto dia, todos os comerciantes retornam às atividades, seguindo o costume deste ser o aniversário do deus da fortuna.
No sétimo, curiosamente, celebra-se o aniversário de todos os habitantes ao mesmo tempo. Ou seja, a partir desta data, todos passam a ser 1 ano mais velhos.
O nono dia, aniversário do Imperador de Jade, é dedicado ao próprio. Oferendas de cana-de-açúcar lhe são destinadas, e costuma-se oferecer chá para pessoas honoráveis.
O décimo-quinto e último dia marca a volta dos espíritos para seu lar atual, e por isso velas são acesas pelas ruas para guiar sua jornada.

A escolha da data muda todo ano por ser sincronizada com o primeiro mês lunar do ano, uma conotação astronômica muito mais apropriada que nossa estaticidade gregoriana, na opinião do autor.


Só para fechar, uma lista de outras superstições para boa e má sorte (respectivamente):

-Deixar portas e janelas abertas,
-Deixar as luzes sempre acesas, para espantar fantasmas,
-Consumir doces por um ano mais 'doce'
-Seguindo a crença que o primeiro dia do ano novo reflete o ano todo, muitas pessoas procuram jogos de azar para testar sua sorte,
-Usar chinelos comprados antes do ano novo, como se para pisotear os fofoqueiros (essa já é tradição aqui em casa há tempos),
-Mudar os móveis da casa,
-Tomar banho com Pomelo, uma fruta cítrica chinesa, para garantir saúde.

-Cortar o cabelo durante o primeiro mês traz maldição para tios maternos (viva a perseguição indiscriminada!),
-Falar sobre morte,
-Comprar ou ler livros, por uma coincidência alfabética do caractere para 'livro' e 'perder',
-Também por coincidências alfabéticas, oferecer presentes em grupos de 4,
-Varrer o chão, pois assim também se varre a boa sorte,
-Comprar relógios, para evitar a conotação de vida limitada ou finita.
-Usar roupas pretas, sendo essa a cor do azar. É interessante notar que o preto é simbólico como cor da sabedoria para o budismo.


歲歲平安 para todos.

20 de jan de 2009

Halfweg's Haven - I


"To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there's the rub:
For in that sleep of death what dreams may come,
When we have shuffled off this mortal coil..."

"But only in their dreams can men be truly free. 'Twas always thus, and always thus will be."

"The net of the sleeper catches fish."

* * *

-Quer um pouco de água?
-Por favor - disse como se um mortal respondendo à oferta do infinito
-Sabe, você tem muita sorte... é um terreno traiçoeiro este pelo qual você vagou até chegar aqui, onde a esperança se alimenta da sombra das dunas e do cintilar da areia na carcaça dos incompreendidos, tão escassas que justificam o nome desse lugar.
-De onde eu venho não se nomeiaria lugar parecido, com certeza a mesma palavra teria seu significado tão renegado que sua mera invocação seria o bastante para esvaziar o fôlego da alma dos que, por desventura, tivessem que usá-la em uma frase.
-E não é exatamente por isso que você está aqui?
Ele sorri com algum esforço e esvazia a areia dos sapatos. Depois de drenar o jarro de água em um gole só, tirou do bolso um livro velho e gasto ornamentado com um ouro afrodisíaco ao olhar que ainda podia fascinar alguns curiosos e que encantava os pássaros que pairavam ao nível da névoa de ferro e papiro que deixava passar apenas o Sol e proibia a vista das nuvens daqueles olhos que precisavam mais delas que quaisquer outros.
-Dos acolhidos aqui desejo apenas um nome em troca da hospitalidade.
-Aseinn, pelo menos é o que consta na capa.
-É o bastante.
Quando abriu o livro, toda a sua vida passou pela ponta de seus dedos. Estranhou como essa descrição era aproximada e inconclusiva no começo, mas depois que lembrou o porquê dele estar aqui se conformou. Aqui não havia lugar para relatos fiéis, disso ele já havia sido avisado pelo quarto porta-bandeira, mas ainda lhe restava alguma angústia sobre-humana para se importar.
A areia continuava seu movimento gracioso tendo o vento como seu éter inabalável. Os distraídos poderiam pensar que havia uma entidade governando o curso dessa cortina opalina, afinal, os lados menos cortantes de seu caminho costumavam levá-los ao lugar certo. Mas era algo dentro deles que fazia a tempestade menos penosa, e certamente era o mesmo que os trazia até mim.

* * *

O Sol tornava sua face plúmbea ao vislumbre dos presentes. Oito deles se curvaram diante do cintilar hipnotizante da água no imponente rio que cortava a terra sem misericórdia; sua corrente ambígua, forte demais para sustentar uma ponte e ainda assim inexpressiva para o movimento dos trirremes, esperando ansiosos por algo. Ao que o nono chega e finca seu cajado ebúrneo na colina adjacente, todos os astros se voltam para a cena e a Lua desce do seu trono celestial tomando suas vestes antropomórficas e quando irradia sobre a água os projéteis de suas crateras, agora olhos de um brilho perfeito demais para existir, ascende aos céus um dragão prateado. E das suas baforadas surgem as nuvens, do rebater de suas asas o céu azul, do sangrar de seus olhos o oceano, da sua investida contra a abóboda celeste e dos fragmentos do que já foi um par de chifres feitos de fogo sólido tudo o que a humanidade precisava para se libertar de sua prisão carnal e aniquilar seus anseios. O rio forma as correntes que seguram o dragão mais uma vez, e sua queda ferve os zodíacos, de onde surge um novo Sol e uma nova Lua. A Lua caída mergulha seu corpo nas montanhas e todos os seres cuja razão natural é estar junto dela em sua sina eterna irrompem em uma chuva de ouro que faz seu caminho até a última fortaleza de seus espíritos. Um novo dia nasce.

* * *

Dois anos buscando o covil de um titã podem te deixar um tanto apreensivo. Comportamento tal que não se deve, de forma alguma, demonstrar enquanto fala com seu objeto de interesse.
-Ah não, mais um? Quantos mais vou ter que receber nesse palácio amaldiçoado pela infâmia de seu dono? Venha, rapaz, não tenha medo. Já há anos não mato um dos seus, sabe como é, perde a graça com o passar dos séculos...
-Heh, não me assustam suas flechas de arrogância. Duvido que você conseguiria matar alguém que chegasse aqui, a sorte que me trouxe pelas portões do infinito é a mesma que mantém seus joelhos no chão desde o foco magnânimo ser criado. Qualquer caído que se preze por aqui com certeza é apenas mais um mártir do destino, não das suas mandíbulas.
-Cuidado como fala, mortal! Não te esqueças que são essas mesmas unhas que tecem o fio da verdade, assim como podem ser as mesmas a rasgá-lo.
-Formalidades a parte, o que esse carnação de bravura tem a dizer sobre a insurreição?
-Nada demais. Logo passa. É como uma maré paraláctica, somente uma ilusão da engrenagem do universo.
-Entendo...
-Lógico que não entende.
-Perdão ó sinistro lorde da psicodélia...
-Tomara que essa ponta que sinto seja da pedra cruel onde me repouso e não de uma ironia insensata.
-Ah mas não é mesmo, pode ficar tranqüilo. Deixo-te aqui com seus pensamentos, eles que tem o dom de agüentar seu cheiro enquanto ainda falam, mais uma vez. Mas eu volto, quando você menos precisar de companhia, prometo.
-Nem precisa, é inevitável mesmo...
E com essas palavras o gigante se despediu, o sol girando atrás de sua testa rachada enquanto os portões se fechavam mais uma vez. E cá estou eu mais uma vez a confrontar os pássaros do relojoalheiro, quem sabe dessa vez a morte me alcança de uma vez por todas...

* * *

"Dreams are as advice given by a very wise - very drunk - old man. A wealth of knowledge behind them, yes, but always, always to be treated with cynicism."

"Dreams are the bright creatures of poem and legend, who sport on earth in the night season, and melt away in the first beam of the sun, which lights grim care and stern reality on their daily pilgrimage through the world."

"Those dreams that on the silent night intrude, and with false flitting shapes our minds delude ... are mere productions of the brain. And fools consult interpreters in vain."

4 de jan de 2009

Razões para ouvir uma música de vinte minutos

Por pelo menos metade do século XX, a composição da música popular anglo-americana seguia algumas regras gerais bastante simples, como disse Roger McGuinn do The Byrds: "Antigamente, você fazia uma música e, se ela era boa, 15 pessoas cantavam suas próprias versões e ela vendia bem". Era o reino dos Jazz Standards, músicas de 3 ou 4 minutos que seguiam uma harmonia bastante padronizada de Jazz influenciada pelo Blues e principalmente pelo jeito dos imigrantes e descendentes italianos de New York cantar, tais como Frank Sinatra e Tony Bennett, e que até hoje são consideradas de bom gosto, inclusive ajudando a construir uma atmosfera muito singular que todos conhecemos bem. Come Rain or Come Shine; Sattin Doll; Take the 'A' Train ou Hard Times (Who Knows Better than I?) são exemplos seminais. Mas na década de 1950, o Rock'n'Roll, a combinação da harmonia do Blues com compassos simples notável principalmente pelo ritmo dançante, iria mudar o estilo da audiência da geração de 1940. Johnny B. Goode, considerada por muitos a peça fundadora do Rock'n'Roll (uma cópia foi inclusive mandada com a nave Pioneer) e obra prima de Chuck Berry inspirou muitos neófitos, ainda crianças, a seguir a carreira musical. Keith Richards dos Rolling Stones atribui a essa música toda sua carreira: "Johnny B. Goode... knocked me out, floored me. After that, I knew what I was going to do, what I was going to be." A combinação do Rock'n'Roll americano e do Skiffle britânico, outro estilo baseado no Country mas com algumas semelhanças estilísticas do Jazz, abriu os olhos de jovens ingleses para o possível sucesso comercial com a música.

Entre várias bandas influenciadas por esse contexto, The Beatles destacam-se por terem fundamentalmente destruído as velhas regras de produção e venda musical e por ter um lineup (não apelidado de "the fab four" a toa) composto por revolucionários, cada um a seu jeito. John Lennon e Paul McCartney contribuíram monumentalmente para o Pop e Rock com melodias experimentais e audaciosas e idealizaram o primeiro concept album da história, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (há controvérsias); Ringo Starr redefiniu o papel de um baterista, que antes era apenas julgado pela qualidade de seus solos, com batidas complexas e tão sutis que fluem perfeitamente com a música sem despertar a menor suspeita de que um exercício genial está marcando seus compassos e George Harrison, discípulo de Ravi Shankar, mestre na sitar indiana e provavelmente o músico oriental mais famoso no ocidente, que usou da música clássica indiana para refinar o pop dos Beatles e estabelecer um legado similar para outras bandas posteriores que usaram do mesmo som. Depois da Beatlemania, uma onda de vanguarda perpetrou pelas bandas dos anos 60, dando origem ao Hard Rock e o Psychedelic Rock, que nos anos 70 iriam se fundir para criar o Heavy Metal, e a constante necessidade de virtuosismo tanto teórico quanto prático de alguns grupos culminou no Progressive Rock.


"Remember the 60s? You know, that era that a lot of people have these...glorious memories of? Which, they really weren't that great those years, but one thing that did happen during the 60s was: some music of an unusual experimental nature did get recorded and did get released." Frank Zappa assim descreve os anos 60 como o apogeu da liberdade artística em termos de derivados do Rock. Curiosamente, as únicas bandas sobreviventes dessa década continuariam como as mais populares dos anos 70: Rolling Stones, famosos por fundir Rythm & Blues e Rock'n'Roll de um jeito único; The Who, que agora já se tornava mais experimental especialmente pelo uso pioneiro de sintetizadores; Led Zeppelin, arquitetos do Heavy Metal e Pink Floyd, o mais progressivo da leva.


Em Ummagumma; Atom Heart Mother; Meddle; Wish You Were Here e Animals, o Pink Floyd gravou ao menos uma música excepcionalmente longa, respectivamente: Sysyphus (13:26), The Narrow Way (12:17) e The Grand Vizier's Garden Party (8:44); Alan's Psychedelic Breakfest (12:59) e Atom Heart Mother Suite (23:44); Echoes (23:31); Shine On You Crazy Diamond (juntas, as partes I e II somam 26:01); e Dogs (17:01). O principal marco nessas músicas é o uso de passagens instrumentais preponderantes e muitas vezes abstratas, como o uso de um circuito invertido do wah-wah de 10:49 até 14:43, aproximadamente, em Echoes. Reza a lenda que essa mesma música foi composta para o filme 2001 : Uma Odisséia no Espaço e de fato é possível sincronizar Jupiter And Beyond The Infinite com a faixa harmoniosamente. Roger Waters também afirmou que Andrew Lloyd Webber roubou a progressão ascendente/descendente do tema para O Fantasma da Ópera em uma entrevista sobre seu álbum solo Amused To Death: "Yeah, the beginning of that bloody Phantom song is from Echoes. DAAAA-da-da-da-da-da . I couldn't believe it when I heard it. It's the same time signature - it's 12/8 - and it's the same structure and it's the same notes and it's the same everything. Bastard. It probably is actionable. It really is! But I think that life's too long to bother with suing Andrew fucking Lloyd Webber", e também cita seu ressentimento na música It's A Miracle, do mesmo álbum solo, na estrófe: "We cower in our shelters, with our hands over our ears/Lloyd Webber's awful stuff runs for years and years and years/An earthquake hits the theatre, but the operetta lingers/Then the piano lid comes down and breaks his fucking fingers/It's a miracle". Para Ummagumma, os membros compuseram músicas solo, uma decisão que eles viriam a arrepender depois pela falta de maturidade musical, mas que ainda são vistas como legítimo Pink Floyd por fãs. Atom Heart Mother Suite, a mais longa do catálogo da banda (considerando que Shine On You Crazy Diamond foi dividida em 2 partes) também teve a ajuda de Ron Geesin e se destaca pelo acompanhamento da Abbey Road Session Pops Orchestra e do John Aldiss Choir. Shine On You Crazy Diamond é um tributo ao ex-membro Syd Barret (Shine on You crazy Diamond - as maiúsculas formam "SYD"), que foi expulso por seu abuso descontrolado de drogas que o fazia interromper shows e gravações por cair em estados catatônicos e por problemas psicológicos depois de gravar The Piper At The Gates Of Dawn e metade de A Saurceful Of Secrets. E o que é o magnum opus The Dark Side Of The Moon senão uma música inteira no lado A e (descontando Money que praticamente quebra toda a condição do álbum até o momento mas cuja presença se torna tão imprescindível quanto das outras faixas por esse memso efeito) outra no lado B?

Por mais incrível que pareça, os Rolling Stones também tiveram seu lado psicodélico. Their Satanic Majesties Request de 1967 é a única excessão na discografia da banda em que há de fato algum vanguardismo ou pelo menos uma tentativa. A resposta dos críticos na época foi extremamente dividida, por um lado, parecia um álbum feito pretensiosamente para igualar ou superar o groundbreaker Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band mas outros o viam como inventivo e bem-feito em termos de composição e arranjo orquestral, e muitos fãs o consideraram como uma alternativa ao pop mais puro dos Beatles, tendo ganhado uma espécie de cult following entre punks principalmente. Embora tenha atingido grande sucesso de vendas, ficando em terceiro lugar nas paradas britânicas; segundo nas americanas e primeiro nas australianas, seria uma direção que a banda nunca mais ia seguir, preferindo manter-se com o tradicional R&B. O álbum posterior, Beggars Banquet, já demonstra o retorno a essas raízes, e foi melhor visto pelos críticos além de conter singles melhor-sucedidos mas sem nada revolucionário ou muito novo.

Depois de The Who Sell Out, Pete Townshend se encontrava em uma crise profissional. O single I Can See For Miles não se tornou o hit que ele esperava, mesmo com número significante de vendas. Escrever pop singles parecia estar fora de questão para esse ego gigantesco, e foi então que seu trabalho se tornou introspectivo e mais profundo em termos filosóficos. Desse momento da existência do Who, surgiu a primeira Rock Opera propriamente dita da história: Tommy. Em 24 faixas interligadas (74:00), o álbum conta a saga de uma criança traumatizada que cresce surda, cega e muda e que depois se torna uma espécie de neo-Messias por uma cura milagrosa mas que é desacreditado por seus próprios discípulos no fim, enquanto chega a um novo estado de iluminação espiritual sozinho. Uma adaptação para cinema também foi feita com músicos famosos como Eric Clapton e Tina Turner, e tanto o álbum quanto o filme foram sucessos comerciais e críticos. Musicalmente, o álbum é um exemplo precoce do uso de sintetizadores que caracterizariam o som da banda nos anos 70 e de alguma ambição musical, mas somente a próxima Rock Opera seria aclamada como a personificação da complexidade de construção de vozes e sintetizadores. Quadrophenia, centrada em alguns dias da vida de Jimmy, mod britânico, e no curso de eventos que levaria ao aparente suicídio, é considerado até mesmo por Townshend como o álbum mais grandioso da banda: "The music is the best music that I've ever written, I think and it's the best album that I will ever write". As músicas revolvem em 4 temas feitos para representar cada membro da banda que se tornam verdadeiras sinfonias em medleys instrumentais onde são misturadas, criando contra-ritmos e modulações no mínimo fascinantes e panteônicas em termos de criatividade. Townshend continuaria a experimentar com a 'tradução' de pessoas em sons, e lançou um software capaz disso há pouco tempo, disponível para um uso trial no site oficial, mas seria a última Rock Opera da banda como um todo, já que Keith Moon, um dos maiores bateristas de todos os tempos e componente vital do som do The Who viria a falecer alguns anos depois.Townshend continuou lançando outras como álbuns solo, notavelmente Psychoderelict e The Boy Who Heard Music.


O Hard Rock mais straightforward do Led Zeppelin não se caracteriza por esforços semelhantes, mas a fuga do limbo criativo é bastante presente. Enquanto apenas 2 ou 4 músicas da banda sejam semelhantes em algum sentido (o consenso é Since I've Been Loving You/Tea For One, mas The Song Remains The Same/Ozone Baby são claramente inter-influenciadas), todas as outras são diferenciadas profundamente e traçam influências diversas, mesmo que todas baseadas no Blues. Nos shows gravados em 1973 no Madison Square Garden para o filme The Song Remains The Same, seqüências fantasiosas idealizadas pelos membros para músicas com seus próprios solos instrumentais ou vocais (Jimmy Page com Dazed And Confused; John Paul Jones com No Quarter; John Bonham com Moby Dick e Robert Plant com The Song Remains The Same/The Rain Song) são o mais próximo de um exercício abstrato que eles já chegaram, fora a 'orgasm part' interludiando Whole Lotta Love. Mas mesmo assim, músicas como Stairway To Heaven e The Battle of Evermore não deixam dúvida sobre a profundidade que seu trabalho chegou e a capacidade de introspecção que Robert Plant tinha enquanto liricista. O uso de compassos complexos e mistos idealizados principalmente por John Bonham e John Paul Jones também perpetra por seus álbuns, principalmente no contra-ritmo 4/4 contra 3/4 da bateria contra melodia em Kashmir, e Jimmy Page contribui com escalas asiáticas e celtas não antes usadas no Hard Rock. A sonoriedade de aproximações cromáticas com power chords em bases modais que Page popularizou marcam até hoje as vertentes do Heavy Metal profundamente, e o estilo 'poderoso' do baterista lhe rendeu até um verbete na Britannica: "John Bonham is the perfect model for any Hard Rock or Heavy Metal drummer that followed afterwards". Tudo isso era costurado pelas orquestrações e arranjos harmoniosos de John Paul Jones, que também contribuiu com alguns dos riffs mais famosos da história, dentre eles Black Dog e Good Times Bad Times. Achilles Last Stand (10:23) é o cúmulo de todos esses elementos juntos, beirando a fronteira do Hard Rock e Heavy Metal e se sobressaindo em ambas categorias ao mesmo tempo. É a prova final do que foi a banda mais popular dos anos 70.


Ainda hoje, os herdeiros de todas essas influências continuam, como Al Kooper disse, "Kicking with extreme force all boundaries of music". Bandas como o Dream Theater fundiram o Heavy Metal com o Progressive Rock pra formar o Progressive Metal: virtuosismo ao extremo com distorção no talo. Six Degrees of Inner Turbulence, Metropolis Pt.2 : Scenes from A Memory e Octavarium, todas com faixas ligadas que sozinhas já ultrapassam a marca dos costumeiros 4 ou 5 minutos de hoje em dia, ás vezes atingindo até mais meia hora, são a reflexão de toda a história da revolução na música popular que aconteceu no século passado, agora também misturado com referências da música clássica, especialmente do romantismo, e mais marcado por instrumentais que nunca. Os vocalistas parecem estar cada vez mais se convertendo em tenores de ópera, os guitarristas transformando seu instrumento num orgão de tuba distorcido e violentamente veloz, os bateristas criando muralhas de percursão e os baixistas mostrando que fritar a penta não é só coisa de guitarrista. Mais os sintetizadores que agora são integralmente parte do Rock, especialmente pela influência do The Who e Yes, cujos efeitos fazem o complemento perfeito tanto para a base quanto solo e também é dotado de muito virtuosismo, como de suas contra-partes.

Os mainstreamers podem olhar torto para esses gêneros, mas eles ainda se mostram como o estandarte das revoluções culturais da nossa era. Pode parecer custoso para muitos, mas sem dúvida é tão necessário dar uma chance a esses álbuns e bandas quanto para os Pop Rocks pasteurizados. Acredite, se há uma razão para ouvir uma música de 20 minutos é que estas são as únicas capazes de gerar uma epifania, ou um baque filosófico, expandir as fronteiras da nossa própria compreensão e interpretação como os muitos pioneiros antes de nós, ou pelo menos se libertar das temerosas correntes do cotidiano e padronização. "Trust me, it can save your life".

(Echoes sincronizado com Jupiter And Beyond The Infinite:
http://www.youtube.com/watch?v=mfgoVZswC4k&feature=PlayList&p=F3805F0D2AAD8B6D&index=0&playnext=1).

(Este post foi inspirado por outro do blog Nós Mesmos [a.k.a. o blog do anglo]:
http://naocabenumblog.blogspot.com/2008/10/razes-para-ver-um-filme-de-quatro-horas.html).